Opinião*

Criar um norte!

*Almir Inacio da Nobrega

As profissões de técnico e de tecnólogo em radiologia têm em comum as mesmas atribuições, a mesma legislação, o mesmo mercado de trabalho, mas não necessariamente os mesmos problemas.   Por conta de disputas internas nos principais órgãos de classe e por absoluta falta de visão e planejamento dos nossos dirigentes, estamos assistindo, de forma passiva e lamentável, a desestruturação dessas profissões.  O técnico em radiologia perde sistematicamente o mercado de trabalho e o tecnólogo, simplesmente, não consegue entrar.

Profissionais biomédicos em atuação na área do diagnóstico por imagem representam uma realidade, triste, diga-se de passagem, pois além de não terem trajetória histórica, não apresentam formação compatível com essa atividade, salvo raras exceções.

Onde erramos?  Como mudar este quadro?

Precisamos parar.  Refletir.  Criar um norte!

Caso contrário vamos engrossar as listas das “espécies em extinção”.

Todas as conquistas alcançadas pelos técnicos em radiologia têm ou tiveram o seu valor, mas a seu tempo.  Muitas dessas conquistas representam hoje o “entrave” para o crescimento profissional e para abertura de novos mercados. São “feridas” nas quais temos que por nossas mãos. 

A lei 7394/85 encontra-se, há muito, ultrapassada, e deve ser revista com a máxima urgência. Destaco pelo menos quatro aspectos que devem ser alterados e/ou incorporados na referida lei:

1º.  Deve ter previsão para acolher os profissionais tecnólogos em radiologia de formação de nível superior.

2º. Deve prever atualização da nomenclatura dos Conselhos para que se transformem em Conselho Federal de Radiologia e Conselhos Regionais de Radiologia. 

3º. Deve ter excluído o artigo que limita a jornada de trabalho em 24 horas semanais, ou mantido apenas para os profissionais que atuam com radiações ionizantes. 

4º. Deve ser excluído o artigo que define o “Salário Mínimo Profissional”.

Justificativas: A nomenclatura dos Conselhos de Técnicos em Radiologia, não só, não representa a atual realidade, mas também remete todos os seus membros à profissionais de nível médio o que não corresponde a verdade.  Quanto a limitação de 24 horas de trabalhos semanais, na forma como está colocada na lei, diz respeito aos profissionais abrangidos pela mesma, independente da sua atividade.  Essa limitação impede que consigamos mercado nas áreas de imagem por ressonância magnética, ultra-sonografia, gestão de serviços de imagem e outras nas quais não se lida com radiações ionizantes e, portanto, não se justifica as 24 horas. 

O artigo que definiu o salário mínimo profissional em dois salários regionais representa hoje o pior salário da área técnica e tecnológica em saúde. O salário que deveria ser mínimo virou referência, e muitos empregadores simplesmente se recusam a negociar. Hoje, dois salários mínimos representam 700,00 (setecentos reais), é o que ganha um serviçal de higiene em um hospital de nível médio.  Tenho certeza que o nosso sindicato teria condições de negociar acordos superiores ao definido na lei e o mercado, por si só, definiria pisos superiores.

Paralelo ao trabalho de atualização da nossa legislação, que sabemos é moroso e sujeito e muitos desdobramentos, precisamos tratar as nossas feridas.

Sabemos que os nossos principais órgãos de classe são administrados por técnicos em radiologia que, com raras exceções, não apresentam preparo para as atividades de gestão, administração e nem de planejamento atual e futuro das nossas profissões.

Os técnicos em radiologia enxergam o tecnólogo como o invasor da sua profissão. Não buscam qualificação pessoal nesse nível e, ainda mais, criam mecanismos que dificultam o crescimento dos tecnólogos.  Considero essas atitudes muito preocupantes e até tenho dito que isto representa a contramão da nossa evolução.

Vejam como se organizam os nossos colegas da área de enfermagem: Os atendentes que eram em grande número, até pouco tempo atrás, já não existem mais.  Os auxiliares de enfermagem acabam de ser extintos de forma que hoje só existem técnicos e enfermeiros.  Nesta semana assiste a um pronunciamento do Senador Tião Viana do PT do Acre com um projeto de lei debaixo do braço fixando um prazo de 10 anos para a extinção dos técnicos de enfermagem e permitindo que atuem na profissão só enfermeiros, profissionais de nível superior. Alguém tem dúvidas de que eles vão conseguir isto?

Sou técnico em radiologia, mas acho que já passou da hora de permitirmos que os tecnólogos em radiologia possam ter uma participação mais decisiva nos destinos da profissão.

Quanto aos técnicos em radiologia sou da opinião que precisaríamos pensar em mecanismos e prazos que pudessem permitir que todos alcançassem a formação em nível superior, a começar pelos nossos dirigentes de classe.  

 

 * Almir Inácio da Nobrega é técnico em Radiologia pela Escola Profissional da Saúde da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. É conselheiro efetivo e presidente da Comissão de Assuntos Educacionais do Conselho Nacional de Técnicos em Radiologia (CONTER-DF), membro da Diretoria da Associação Latino-Americana de Técnicos em Radiologia (ALATRA), na função de delegado para o Brasil. Atua como técnico em Radiologia no setor de ressonância magnética e tomografia computadorizada dos Hospitais Santa Catarina e Oswaldo Cruz de São Paulo e é docente do Centro Universitário São Camilo nas disciplinas Ressonância Magnética Nuclear e Radiologia Digital. Presidiu o Conselho Regional de Técnicos em Radiologia do Estado de São Paulo. Presidiu a Associação de Tecnologia do Estado de São Paulo (ATRESP) de 2001 a 2004 e é atualmente Diretor de Relações Públicas desta. Autor dos livros Manual de Tomografia Computadorizada (Atheneu, 2005), Técnicas em Ressonância Magnética Nuclear (Atheneu, 2006) e Organizador de Tecnologia Radiológica e Diagnóstico por Imagem (Difusão, 2006).

 

Contatos: ainobrega@yahoo.com.br

Este é um espaço aberto a todos, e as opiniões aqui expostas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as opiniões do Tecnologia Radiológica.

Mande também suas opiniões

Leia Também outras opiniões

Site Elaborado por: Marcelo Ortiz Ficel